Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

nação arco-íris

Gosto de ler caricaturas. E gosto mais delas quando são do sul-africano Zapiro - um dos melhores caricaturistas regional da actualidade. Gosto também do Steve Bell (este é británico). A caricatura é uma ferramenta muito forte de comunicação, que invariavelmente conta uma estória complexa numa ou poucas imagens.
Só se pode perceber a caricatura (cartoon) quando se (a) tem conhecimento sobre o evento que ela pretende caricaturar e o seu período; (b) vê e compreende as diferentes questões evocadas pela caricatura; (c) quando se reflecte sobre o caricaturista e seus motivos. Por outras palavras, a caricatura provoca as nossas mentes e são como que um comentário adicional às notícias.
Por exemplo, o cartoon que acompanha este pequeno texto ilustra de forma muito clara a forma como os humanistas olham para o sonho arco-íris sul-africano. A caricatura mostra a ilusão de que as nações são criadas apenas por vontade sem acção.
Reparem para Mandela e Tutu no canto inferior esquerdo. Porquê é que Zapiro colocou os dois (são a consciência moral sul-africana) e não o Mbeki ou Zuma? O que acham que devem estar a pensar? O que Zapiro pretende nos dizer ou que mensagem quer fazer passar? E a quem e para quem? Será que os ataques xenófobos mancharam a imagem da África do Sul? Como assim? Enfim, penso que o resto cada um pode ir pensando.
Se trouxe este tema sobre as caricaturas foi apenas porque nalgum momento tinha que mostrar a minha indignação face à essas atitudes xenófobas que nos dias que correm andam na boca do povo. Apresso-me a dizer que não entendo o que está a acontecer. Mas aí vai uma minha solidariedade para com as vítimas de xenofobia.

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

E o vencedor é….

São poucas as pessoas do meu convívio que não gostaríam de receber um prémio qualquer. Eu também confesso que gostaria de receber um prémio pelo meu suor e sacrifício. Até já fiz os meus planos: em 2009, quero concorrer para o prémio “CNN Jornalista Africano do Ano”. Sentindo que o português reduz as minhas chances de competir com mais colegas africanos, vou competir em inglês.
Bem, o prémio serve para estimular os jornalistas que mais se “distinguem” na cobertura e divulgação de notícias de “interesse público”, sobretudo notícias que afirmam os padrões de ética e moral jornalístico.
Os prémios pelo mundo fora são tantos que não caberiam neste espaço e nem vem ao caso. Vou apenas deter-me sobre o que me interessa discutir hoje: a criação de prémios para jornalistas em Moçambique - ultimamente, tem sido prática qualquer entidade pública, humanitária e corporativa instituir um prémio para jornalistas.
Recentemente uma empresa de telecomunicações ou produtor de telefones móveis celulares (já não me recordo se a Vodacom ou qualquer outra) deu um prémio à alguns jornalistas da praça. Até aquí não há problemas. O problema começa quando se quer saber os critérios utilizados para a premiação. O assunto torna-se confuso porque em momento algum a tal empresa anunciou a existência do tal prémio.
Umas pequenas perguntas aquí e acolá obrigam-nos a tapar as narinas. Afinal os premiados produziram alguns artigos falando da tal empresa. Estão a ver? A percepção com que se fica é de que o prémio é uma palmadinha nas costas e uma manobra de relações públicas.
Aliás, pelo mundo fora já-se chegou à conclusão de que alguns (porquê não muitos) prémios são um exercício de relações públicas e conferir maior visibilidade ao premiador. Por exemplo, a UNCA (United Nations Correspondents Association) estabeleceu dois prémios: Prémio de Excelência no Jornalismo” e “Cidadão do Mundo”. Alguns vencedores da última categoria incluem as artistas de cinema, Angelina Jolie e Nicole Kidman.
O truque parece ser de promover as pessoas que conferem uma imagem positiva à ONU. Dizia um correspondente da ONU que “se um jornal com nome grande faz algo remotamente ligada à ONU, vai ganhar porque fica bem dar o prémio a grandes nomes.”
Chegados aquí fico até tentado a dizer que a estratégia da empresa que ofereceu os celulares à jornalistas moçambicanos parece ser a mesma que da UNCA.
Não é por acaso que ministérios, empresas privadas e ONGs acabam agora instituindo prémios cuja validade parece não ser outra que co-optar os média a cobrirem as suas actividades. Aparentemente, esses prémios servem para consciencializar os jornalistas sobre um determinado assunto social, cultural ou económico. Evidentemente que essa consciencialização acaba acorrentando o jornalista que vira um servilista do sistema. Ao invés de escrever e divulgar para a salvaguarda do “interesse público”, o jornalista escreve para salvaguardar certos interesses (in)confessos.
Quando se observa os artigos vencedores, nota-se que muitas vezes não tem grande qualidade. Mas porque é preciso fazer uma cerimónia que confira essa maior visibilidade à instituição premiadora, o prémio acaba saíndo. É que como se diz na falta do melhor o pior serve.
Posso até entender que a Mcel, Vodacom, as TDM, o Ministério da Ciência e Tecnologia associem-se às outras instituições ligadas ao ramo de telecomunicações para a criação de um prémio sobre tecnologias de comunicação e informação, mas já fico preocupado quando é uma Mcel que aparece sozinha a instituír um prémio – isso não é futebol.
Ficaria feliz se os prémios fossem até instituidos por instituições independentes de pesquisa que estabeleceríam critérios rigorosos. Nem todas estabelecem critérios rigorosos, mas se pelo menos o seu mandato é influenciar para políticas que sirvam o “interesse público”, não me ralo.
Mais o mais importante para mim, seria ver essas instituições que têm tanto dinheiro para instituír prémios a entregá-lo à escola do jornalismo ou outras instituições de formação jornalística para se melhorar as habilidades e capacidade do jornalista moçambicano.

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Mecânico-jornalista

A tragicomédia sobre o mecânico-ginecologista e o subsequente comentário de Patrício Langa referente à outros mecânico-outras profissões neste blog remeteram a uma reflexão, olhando para o jornalismo.
Houve há tempos um debate sobre uma eventual introdução de uma carteira profissional para o jornalista. A ideia não colheu consenso entre a classe: uns (os proponentes) viam isso como uma medida visando salvaguardar os interesses do jornalista e outros (os contra) viam nisso uma manobra para coarctar os direitos do mesmo.
Com quase toda a sociedade moçambicana que contribui na esfera pública a concordar que o insólito caso do mecânico-ginecologista é apenas a ponta do icebergue que encerra um problema ainda maior: a fragilidade do nosso sistema. Se o entendi bem o sociólogo Elísio Macamo tem usado uma outra expressão “previsibilidade” para descrever fragilidade.
Noutros países essas fragilidades do sistema são contrapostas por um sistema de contrapesos (checks and balances). São esses contrapesos que permitem que haja alguma previsibilidade no sistema, e que qualquer fragilidade seja prontamente respondida.
Tendo ficado sobre o muro durante o debate com alguns receios, penso que é chegada a hora de se relançar o debate. Penso que é hora de se relançar o debate porque o que aconteceu com os médicos acontece quase que diariamente com os jornalistas; quero dizer que existem muitos mecânico-jornalistas. Evidentemente que, não digo isso no sentido de que há jornalistas que são mecánicos. Pelo contrário! Digo isso porque o comportamento de alguns (senão mesmo muitos) jornalistas compara-se ao do mecânico-ginecologista.
Em Moçambique, a profissão de jornalista é talvez a única no grupo das consideradas profissões de elite em que a qualificação académica não é um factor determinante para ser admitido numa redacção. Basta saber escrever!!!!! Isso significa que podemos ter um mecánico que sabe escrever, que pode acabar numa redacção. De facto existem casos similares: há um motorista duma estação televisiva que não largava pé das equipas de reportagem da sua instituição quando estas se fizessem ao terreno. Um dia pegou na cámera e acabou virando “camera-man”. Temos o director da famosa que começou de mineiro para pastor, estafeta na nossa e agora director geral na famosa concorrência – esses são casos de ambição e vontade de subir na vida, o que é bom.
Então, de onde vem a famosa assumpção de que fulano, beltrano e sicrano podem ser jornalistas? É preciso entender que as empresas jornalísticas pagam mal, mas muito mal mesmo (embora esteja um pouco acima do salário mínimo). Dai que, não surpreende que os melhores da praça acabem abandonando a profissão à procura de pastos mais verdejantes. Consequentemente, as empresas são obrigadas a empregar novos talentos e no processo, algumas, baixam a sua fasquia de padrões de selecção e o resultado está à vista.
Costuma-se também dizer que o exemplo vem de cima. Muitos dos chefes de redacção para suplementarem (essa é a justificação) os seus salários recorrem à acessorias à ministros, partidos políticos, PCAs, ONGs, empresas privadas, entre outros. Os novos talentos vêm isso e como não podem assessorar por serem caloiros e por o mercado estar cheio, sendo que, a alternativa (para eles) é prostituirem-se aos que encomendam artigos – é um ciclo vicioso onde é preciso ter estofo moral e integridade profissional para não vacilar.
Como, então, é que os jornalistas podem fazer trabalhos apurados sobre a corrupção, criminalidade, negociatas, entre outros? Não podem porque ficam capturados.
Os proponentes da carteira profissional dizem que o critério para sua obtenção seria a ética e deontologia profissional. Acho isso pacífico - já não fico feliz quando é o Estado a emitir a carteira. Não vejo mal nenhum onde todos acordamos um código deontológico (coisas como ser acessor teriam que acabar eventualmente: ou se é acessor ou jornalista e não as duas coisas ao mesmo tempo).
Vejo a carteira profissional como um contrapeso contra abusos e corrupção no seio da profissão. E precisamos de contrapesos porque sem eles as fragilidades ocorrão, visto ocorrerem onde não existem e certas situações, como as do mecânico-ginecologista, se tornam normais e aceites.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Moçambique em concerto

Aos domingos há um programa (Moçambique em Concerto) que passa no canal de televisão pública moçambicana (TVM), que é apresentado pelo antigo pastor da Igreja Universal (Gabriel Júnior) – sempre pensei que fosse brasileiro pelo sotaque que usava dantes. Agora já se pode perceber que é moçambicano.
Bem .... o programa tem uma rubrica que consiste em cinco perguntas feitas à “celebridade” convidada. Não me recordo de todas elas, mas as que mais me deixam atento são duas, nomeadamente “a quem tiras o chapéu e a quem não tiras o chapéu” e “que nota de 1 à 20 dás a esta música”. A propósito, cada pergunta vale 500 meticais, isto é, se a tal “celebridade” aceitar respondê-las.
Ontem (18/05/08) foi a vez do jovem Bang (evidentemente que nome artístico). Recusou-se a reponder à uma. Das duas que me fazem prestar atenção quando aos domingos à tardinha estou em casa o Bang disse que tirava o chapéu aos apresentadores da rádio, televisão e todos aqueles que apoiam o seu género de música (pandza), e que não tirava o chapéu a todos os que criticam o pandza.
Para ele, o povo moçambicano deve apoiar o pandza porque é música moçambicana e que quem não apoia é invejoso. O engraçado é que implicitamente o Gabriel (qual serafim) o apoiava dizendo que se a pandza morrer, desapareceria um quarto da cultura moçambicana (juro que disse). Não tenho problemas nenhuns em o Bang dizer que a pandza é música moçambicana; e também não tenho problemas em que ele não me tire o chapéu por ser crítico do pandza. Tenho problemas com os argumentos que utiliza para apoiar a sua premissa.
Ora, será que tenho que apoiar algo que quanto a mim não tem estética artística e musical, e está privado de conteúdo (pelo menos grande parte dos pandzas não o tem)? Será que tenho que consumir o “Made in Mozambique” apenas porque é produto moçambicano? Será que quando não gosto de algo e critico sou invejoso? Será que o que passa no espaço público não deve ser interpelado sob risco de os interpeladores serem acusados de invejosos? Será que o pandza vai evoluír se os “tocadores” desse estilo continuam a pensar que quem critica é invejoso?
Gostaria que ao Bang se lhe tivesse dado tempo para explicar porquê o pandza é música moçambicana; se porque tocada por “cantarinos” moçambicanos? Se porque leva ritmos moçambicanos? Se porque é cantado mais em ronga ou changana?
Não sei de onde o Gabriel foi tirar a estatística de que o pandza é um quarto da cultura moçambicana; só sei que o afirma sem papas na lingua. Uma outra afirmação perigosa que fez foi de que 18 milhões de moçambicanos (desde o topo à base) estavam a ver o programa. Primeiro, apenas existem 1.113.400 televisores em todo este Moçambique, o que tériamos que ter 16 aglomeradas no mesmo sítio para acompanhar o programa. Segundo, raramente se fazem sondagens de audiências em Moçambique. Terceiro, a TVM parece não ter controle dos seus programas feitos na bse de “out-sourcing”, isto quer dizer que um dia alguém pode dizer algo que atenta contra a tal Unidade Nacional e a “Nossa Televisão” estará vinculada por não controlar os programa terceirizados (um dia volto a esta questão).
Quanto a outra pergunta que também deixa-me atento, Bang deu nota 20 a canção de Lizha James (Ni ta mukuma kwine); um 18 ao rap da Dama do Bling (Rua); e um nove a “canção” do Zico (Xitilo xa Boby). Posso concordar que a canção da Lizha James tem conteúdo positivo porque chama atenção ao amantismo. Agora, quanto ao rap da DdB, acho-o apenas uma tentativa de resposta mal feita aos seus críticos (estou incluso).
Nem vou falar do “Xitilo xa Boby” .... Vou é falar da pontuação dada a esta “canção”. Primeiro, o Bang foi colocado numa alhada porque todas as músicas são de “cantarinos” do seu estábulo (label) e porque quer que vendam, não podia dar negativas. Segundo, ele é que é o produtor, o que quer dizer que a negativa reflecte o seu próprio trabalho. Terceiro, os “cantarinos” são seus amigos.
O que é contecioso é dizer que dava ao “Xitilo Xa Boby” nove porque feria as sensibilidades de menores. E a dos adultos? O “Moçambique em Concerto” não passa de um programa mal concebido como tantos outros nas nossas televisões. Os seus apresentadores andam mal informados e acabam confundindo as suas audiências. O pior de tudo isso é que o grosso dos que vêem o programa são jovens que facilmente podem tomar como verdades bíblicas as palavras do Gabriel.

Acordo ortográfico: brincando aos p’s e k’s

Ultimamente tem aumentado o coro de vozes debatendo o acordo ortográfico português. O acordo ortográfico visa unificar a escrita do português.
O acordo foi alcançado em finais de 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994, mas apenas quatro dos Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Brasil, Cabo Verde, Portugal e São Tomé e Príncipe) aprovaram quer o acordo quer os dois protocolos modificativos entretanto estabelecidos entre os países da CPLP.
O segundo protocolo modificativo de 2004 prevê que o mesmo entre em vigor mediante ratificação por três países. A ratificação pelo parlamento abre caminho à aplicação do Acordo Ortográfico, e em Portugal estabeleceu-se um período de transição de seis anos.
A imprensa portuguesa tem ultimamente colocado as posições pró e contra. Passe uma notícia nos Notícias, pouco ouvimos sobre o acordo em Moçambique. Não me surpreende que um dia acordemos com a informação de que o acordo já entrou em vigor.
Eu aínda não fiz o meu juizo sobre se estou a favor ou contra, mas dentro em breve vou fazê-lo. É que aínda não me habituei à ideia de ter que escrever que o jornalista reporta fatos ao invés de factos.
Também preocupa-se a ideia de que um acordo entra em vigor com a ratificação de uma parte de países membros e não todos eles. Para uma organização de apenas oito países porquê se acorda que o acordo entre em vigor com apenas três ratificações? Porquê é que têm de ser apenas os políticos e não a academia em frente do processo? Porquê é que não estamos a ter um debate sério aqui no país? Porquê é que o ministério da educação e cultura anda calada? Qual é a posição de Moçambique? Que vantagens traz-nos um acordo ortográfico?
Há uma petição que anda na internet contra o acordo ortográfico, envolvendo académicos e outros membros da sociedade falante de português. Existe também um corpo de apoiantes do acordo que não deve ser subestimada.
Os países falantes de inglês não tem tal acordo. Não é por acaso que temos “colour” e “color”, entre outros. Esses países apenas têm um acordo no tocante à linguagem legal. Daí que é mister questionar porquê é que precisamos de um acordo ortográfico. Onde andam os linguistas (E. Macamo, tem alguma ideia de como podemos despoletar o debate)?

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Manipulação mediática

Por Ericino de Salema*
É lugar comum dizer que todo o ser humano tem preferências por umas coisas em detrimento de outras. Dito de outra forma, todos nós gostamos de umas coisas e detestamos outras. Como diz um velho ditado popular, com o qual não concordo muito, os gostos não se discutem. Será que mesmo os que tenham a ver com a coisa pública não podem ser relativizados e/ou negociados?
Eu sou dos que gostam de muitas coisas. Muitas que, se tivesse que enumerá-las, correria o risco de me esquecer de algumas, o que não seria saudável. Mas há uma de que gosto muito. Refiro-me à política. Gosto imenso dela. Mas porquê? Porque julgo ser fascinante compreender essa empresa a que David Easton catalogou de “distribuição autoritativa de valores”.
É para mim apaixonante, devo confessar, procurar perceber as razões que levam a um cidadão eleito pelo povo para funções muito importantes – Armando Guebuza, por exemplo, que foi eleito Presidente da República (PR) – a confiar toda uma província a pessoas como Djalma Lourenço, cuja digitalidade aprecio muito. Para não deixar este cidadão ora afecto aos audiovisuais sozinho, citaria também o nome de Raimundo Diomba. Que pode ele fazer mesmo para superintender o desenvolvimento de Gaza?!!!
Gosto de política, sim, mas não sei se gosto de políticos. Refiro-me aos que se acham políticos profissionais, quais Filipe Paúnde, Edson Macuácua, Manuel Pereira, Fernando Mazanga e por ai além. Quem, talvez por opção de vida, se faça passar por desatento, até que pode pensar que os quatro que enumerei atrás, a título meramente exemplificativo, sejam diferentes. Até que podem sê-lo, mas somente na semelhança.
Qual é a finalidade de tudo quanto Edson Macuácua anda a dizer por intermédio dos media, sempre com aquela sua fotografia estática que, para alguns, é grande imagem? Exercer e manter o poder – que é, como diria Robert Dahl, a capacidade que A tem de obrigar B a fazer algo que jamais faria sem a intervenção de A –, já que o seu patrão, a Frelimo, já está no poder. Qual é a finalidade de tudo quanto Fernando Mazanga anda a dizer por intermédio dos media, mostrando sempre uma cara de quem esteja “muito preocupado” com o futuro do país? Chegar ao poder, já que o seu patrão, Afonso Dhlakama, está a “governar” na oposição. O poder, portanto, é o que move a um e ao outro. O resto é conversa para o boi dormir.
E o poder tem várias características, de entre as quais os estudiosos de fenómenos políticos priorizam cinco, nomeadamente força, manipulação, persuasão, coerção e autoridade. Russel, o Bertrand, veio dizer que só a força e a manipulação é que podem ser tidas como características do poder. Para os propósitos desta prosa, cingir-me-ei no elemento manipulação.
Com as eleições autárquicas à porta – foram marcadas para 19 de Novembro – os políticos desdobram-se, cada um à sua maneira, em esforços tendentes a manipular a opinião pública, usando, para o efeito, os media. Uns dizem que são “a força da mudança”, enquanto que outros referem ser “a mudança tranquila”. Ou estaremos, em síntese, perante uma força tranquila de não mudança?
Em jeito de consubstanciação da ideia, que nem é minha, de que os meios de comunicação social são usados como disseminadores das mensagens manipuladoras dos políticos, permito-me a tomar como exemplo o “Notícias” de 12 de Maio, nomeadamente a sua página 3, reservada à política. Três textos ocupam metade dessa página, já que outra metade está ocupada por uma publicidade claramente identificada como tal.
Os títulos desses artigos são os seguintes: “SG da Frelimo contra mentiras eleitoralistas”; “PPPM rompe com a Renamo-EU”; e “Guerras étnicas ‘abanam’ Renamo em Nampula”.
O SG da Frelimo, Filipe Paúnde, manifestou-se contra as “mentiras eleitoralistas” numa altura em que se encontrava de visita à província de Maputo. Dito com algum rigor, se encontrava de visita às vilas e cidades autárquicas da província de Maputo, à excepção de Boane que talvez entrou no seu roteiro por estar ao longo do percurso. Porquê não foi a Milibangalala, por exemplo? Ao citá-lo a dizer que está “contra mentiras eleitoralistas”, o “Notícias” deixa transparecer que ele, o SG da Frelimo, é só e só por “verdades eleitoralistas”!...
Quando a mesma publicação escreve que “PPPM rompe com Renamo-EU” e “Guerras étnicas ‘abanam’ Renamo em Nampula”, fica-se com a sensação de que a Renamo, o maior partido da oposição em Moçambique, vai de mal a pior. Até que, por mera coincidência, a Renamo pode estar mesmo à deriva, mas é importante ter-se presente o que nos diz José Rebelo, no seu livro “O Discurso do Jornal”: “O contexto em que as mensagens passadas por um jornal são transmitidas são parte integrante da mensagem”.
Ou, como diria Lula da Silva, presidente do Brasil, a notícia tem que ser vista como “aquilo que os políticos não querem que seja publicado, sendo, o resto (o que querem que seja publicado) propaganda”. Quando um repórter inteiro, que está a um centímetro do seu diploma universitário, aceita integrar uma “Presidência Aberta” para escrever exclusivamente para o boletim dum partido político, é porque os morcegos já devem estar para começar a doar sangue.
Alguns, de tanto serem honestos, há muito que confessaram estar sempre em campanha, enquanto que outros já afirmaram que não estar interessados em chegar ao poder, como se um partido político fosse uma associação de moradores. Nos próximos dias, mesmo os desatentos virão títulos garrafais dizendo que “Vitória da (…) é um Imperativo Nacional” e “A (…) já deu o que tinha a dar”.
* Jornalista e pesquisador dos média
NB: O texto é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Falso ginecologista

Penso que como qualquer outro moçambicano que acompanha as notícias que a comunicação social nos dá a conhecer diariamente, tenho algumas preocupações face à forma como o Ministério da Saúde (MISAU) tem vindo a gerir o escândalo do falso médico ginecologista.
No dia 13 de Maio, a STV (sempre ela) emboscou o Ministro de Saúde, Paulo Ivo Garrido, à saída de uma reunião qualquer e o interpelou sobre o assunto. Resposta do Ministro: “tirem este senhor daqui”. As imagens mostram Garrido a dirigir-se ao polícia que certamente faz trabalho de guarda-costas.
Ora, não dirige o ministro um ministério que é público e como tal deve a esse mesmo público algumas repostas? Por sorte o porta-voz do MISAU já foi mais cauteloso, dizendo que aínda não tinha todos os detalhes do caso.
No dia 14 de Maio, a STV mostrou o ministro já um pouco mais diplomata disse que o caso aínda estava a ser investigado, e que a STV andava distraída porque ele já disse vezes sem conta de que no seu ministério havia casos de impostores. Mas um impostor por três anos? E aínda mais um médico? O país tem por aí uns 660 médicos. Que do grupo destes não se saiba quem é quem é uma tragi-comédia.
O que o ministério deve fazer é dizer-nos como foi possível que um mecánico se fizesse passar de médico durante três anos sem que ninguém o descobrisse; devia-nos dizer se o mecánico-médico recebia dos fundos do Estado ou não; devia-nos explicar se podemos continuar a confiar nos vários médicos que pululam pelos nossos hospitais.
Não é apenas quando faz as suas rusgas que a comunicação social deve aparecer a reportar. O ministro ou ministério devem ter a mesma vontade quando o assunto de alguma forma mancha a imagem da instituição. Os média não estão para servir os interesses do ministro ou do ministério, mas para servirem os interesses do público (pelo menos foi o que me foi ensinado). PS: Algo para reflexão: há duas semanas foi detido um enfermeiro por tentativa de violação sexual à quatro mulheres. O tal enfermeiro que metia os dedos nas partes mais íntimas da mulheres. Esta semana temos esse falso ginecologista que certamente mandava as mulheres se despirem e fazia sei-lá o quê. O quê está a acontecer aqui? O que dizem os ginecologistas como uma classe? Me parece que o seu nome está a ficar manchado quer queiram quer não.