É lugar comum dizer que todo o ser humano tem preferências por umas coisas em detrimento de outras. Dito de outra forma, todos nós gostamos de umas coisas e detestamos outras. Como diz um velho ditado popular, com o qual não concordo muito, os gostos não se discutem. Será que mesmo os que tenham a ver com a coisa pública não podem ser relativizados e/ou negociados?
Eu sou dos que gostam de muitas coisas. Muitas que, se tivesse que enumerá-las, correria o risco de me esquecer de algumas, o que não seria saudável. Mas há uma de que gosto muito. Refiro-me à política. Gosto imenso dela. Mas porquê? Porque julgo ser fascinante compreender essa empresa a que David Easton catalogou de “distribuição autoritativa de valores”.
É para mim apaixonante, devo confessar, procurar perceber as razões que levam a um cidadão eleito pelo povo para funções muito importantes – Armando Guebuza, por exemplo, que foi eleito Presidente da República (PR) – a confiar toda uma província a pessoas como Djalma Lourenço, cuja digitalidade aprecio muito. Para não deixar este cidadão ora afecto aos audiovisuais sozinho, citaria também o nome de Raimundo Diomba. Que pode ele fazer mesmo para superintender o desenvolvimento de Gaza?!!!
Gosto de política, sim, mas não sei se gosto de políticos. Refiro-me aos que se acham políticos profissionais, quais Filipe Paúnde, Edson Macuácua, Manuel Pereira, Fernando Mazanga e por ai além. Quem, talvez por opção de vida, se faça passar por desatento, até que pode pensar que os quatro que enumerei atrás, a título meramente exemplificativo, sejam diferentes. Até que podem sê-lo, mas somente na semelhança.
Qual é a finalidade de tudo quanto Edson Macuácua anda a dizer por intermédio dos media, sempre com aquela sua fotografia estática que, para alguns, é grande imagem? Exercer e manter o poder – que é, como diria Robert Dahl, a capacidade que A tem de obrigar B a fazer algo que jamais faria sem a intervenção de A –, já que o seu patrão, a Frelimo, já está no poder. Qual é a finalidade de tudo quanto Fernando Mazanga anda a dizer por intermédio dos media, mostrando sempre uma cara de quem esteja “muito preocupado” com o futuro do país? Chegar ao poder, já que o seu patrão, Afonso Dhlakama, está a “governar” na oposição. O poder, portanto, é o que move a um e ao outro. O resto é conversa para o boi dormir.
E o poder tem várias características, de entre as quais os estudiosos de fenómenos políticos priorizam cinco, nomeadamente força, manipulação, persuasão, coerção e autoridade. Russel, o Bertrand, veio dizer que só a força e a manipulação é que podem ser tidas como características do poder. Para os propósitos desta prosa, cingir-me-ei no elemento manipulação.
Com as eleições autárquicas à porta – foram marcadas para 19 de Novembro – os políticos desdobram-se, cada um à sua maneira, em esforços tendentes a manipular a opinião pública, usando, para o efeito, os media. Uns dizem que são “a força da mudança”, enquanto que outros referem ser “a mudança tranquila”. Ou estaremos, em síntese, perante uma força tranquila de não mudança?
Em jeito de consubstanciação da ideia, que nem é minha, de que os meios de comunicação social são usados como disseminadores das mensagens manipuladoras dos políticos, permito-me a tomar como exemplo o “Notícias” de 12 de Maio, nomeadamente a sua página 3, reservada à política. Três textos ocupam metade dessa página, já que outra metade está ocupada por uma publicidade claramente identificada como tal.
Os títulos desses artigos são os seguintes: “SG da Frelimo contra mentiras eleitoralistas”; “PPPM rompe com a Renamo-EU”; e “Guerras étnicas ‘abanam’ Renamo em Nampula”.
O SG da Frelimo, Filipe Paúnde, manifestou-se contra as “mentiras eleitoralistas” numa altura em que se encontrava de visita à província de Maputo. Dito com algum rigor, se encontrava de visita às vilas e cidades autárquicas da província de Maputo, à excepção de Boane que talvez entrou no seu roteiro por estar ao longo do percurso. Porquê não foi a Milibangalala, por exemplo? Ao citá-lo a dizer que está “contra mentiras eleitoralistas”, o “Notícias” deixa transparecer que ele, o SG da Frelimo, é só e só por “verdades eleitoralistas”!...
Quando a mesma publicação escreve que “PPPM rompe com Renamo-EU” e “Guerras étnicas ‘abanam’ Renamo em Nampula”, fica-se com a sensação de que a Renamo, o maior partido da oposição em Moçambique, vai de mal a pior. Até que, por mera coincidência, a Renamo pode estar mesmo à deriva, mas é importante ter-se presente o que nos diz José Rebelo, no seu livro “O Discurso do Jornal”: “O contexto em que as mensagens passadas por um jornal são transmitidas são parte integrante da mensagem”.
Ou, como diria Lula da Silva, presidente do Brasil, a notícia tem que ser vista como “aquilo que os políticos não querem que seja publicado, sendo, o resto (o que querem que seja publicado) propaganda”. Quando um repórter inteiro, que está a um centímetro do seu diploma universitário, aceita integrar uma “Presidência Aberta” para escrever exclusivamente para o boletim dum partido político, é porque os morcegos já devem estar para começar a doar sangue.
Alguns, de tanto serem honestos, há muito que confessaram estar sempre em campanha, enquanto que outros já afirmaram que não estar interessados em chegar ao poder, como se um partido político fosse uma associação de moradores. Nos próximos dias, mesmo os desatentos virão títulos garrafais dizendo que “Vitória da (…) é um Imperativo Nacional” e “A (…) já deu o que tinha a dar”.
* Jornalista e pesquisador dos média
NB: O texto é da responsabilidade exclusiva do seu autor.