terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Ironicamente adorando a Frelimo
segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
Percebendo o socialismo capitalista de Chipande
quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
Os rótulos da pobreza mental
segunda-feira, 23 de Março de 2009
A pobreza jornalística
Acho que já devem estar fartos de ouvir sobre a importância dos meios de comunicação social na educação e formação da sociedade. Eu também já ouvi isso vezes sem contas, tanto na redacção como nos bancos de instituições dos media onde fui aprender as teorias de comunicação e a arte do jornalismo. É que eu comecei por fazer jornalismo na prática e depois fui aprender a teoria. Bem, isso não interessa muito.
O jornalismo nos tempos aúreos da revolução serviu para avançar os interesses da Frelimo, mas pelo menos essa estava clara sobre o que pretendia que fosse a comunicação social. Eduardo Namburete escreveu numa comunicação sobre os meios de comunicação de massas no país que numa reunião que Samora Machel teve com os jornalistas em Setembro de 1975, foram afloradas várias questões sendo que ressalvo as seguintes: a imprensa deve escrever para o povo; as notícias devem ser buscadas no trabalho do povo; o jornalista deve reflectir, à nível cultural, a personalidade moçambicana.
Evidentemente que há questões que podem ser questionadas, mas vamos utilizar o princípio de caridade e centrarmo-nos no essencial. Todas as acções do jornalista deviam ser focalizadas sobre o povo (já sei que subentende-se um quê de paternalismo, mas eram outros tempos). É interessante que a perspectiva marxista dos meios de comunicação social continua válida em quase todo o mundo – os média existem para defender a população e procuram buscar nele a sua legitimidade. Mesmo onde as demarcações ideológicas são bens patentes entre eles o povo fica no centro (embora mais e mais os interesses económicos comecem talvez a ser mais determinantes).
A definição mais elementar sobre a comunicação diz que é o processo de troca de ideias, factos, opiniões através dos quais o recepiente da informação partilha o sentido e compreensão com a outra. No caso dos média, eles informam e o público reage em função da compreensão que tem da informação. Dai segue que um bom comunicador deve compreender o recepiente da mensagem e conhecer as capacidades do mesmo não somente em entender a transmissão como também o seu efeito. Aqui subtende-se que da emissão da mensagem há vários codificadores e descodificadores para que se entenda a transmissão.
Voltamos ao educar e informar. Mas como jornalistas (eu incluso) educamos e informamos? Vem isso a propósito das desnecessárias mortes de compatriotas na Zambézia e Nampula. “Amarrou-se a chuva” de um lado e distribuiu-se “a cólera” do outro, e será que houve tentativas de se procurar entender porquê razão as pessoas agiram como agiram? Que condições existiram para que agissem como agiram? Em que contexto se reproduzem esse tipo de manifestações? Qual é a relação de cada uma das famílias nesses povoados? Que mecanismos essas populações têem de resolução de conflitos? Já houve casos semelhantes no passado? Existem ou não estruturas de solidariadade no seio dessas comunidades? Se existem, porquê não foram despoletadas? O que enforma as decisões dessas comunidades? Como é que são comunicadas as mensagens de sensibilização contra tais práticas? Que linguas são utilizadas para as comunicarem?
Enfim, o jornalista não precisa ser um cientista. Apenas precisa ter um pouco mais de imaginação e sempre utilizar uma das ferramentas que nos é ensinada: o cinismo (Já tinha explicado sobre isso numa postagem anterior). O cinismo aqui significa farrejar sempre a procura do osso, e não aceitar explicações simples. Mas será que as explicações dadas sobre os “amarra chuva” e “distribuidores de cólera” levantaram algumas suspeições dos jornalistas que cubriram os fenómenos?
Dizia eu que o papel da comunicação social é educar e informar. Pois bem, está-se a informar, mas onde é que está a componente educacional? Talvez a dificuldade resida na codificação e descodificação das mensagens?
A questão acima leva-me a uma outra: não existirá uma dificuldade de descodificação das mensagens por parte de muitos moçambicanos? E se existe, porquê não pensar noutras fórmulas? Penso que Moçambique é o único país na África Austral onde não se conheçam jornais escritas em linguas nacionais. Há um tratamento quase desprezível das linguas nacionais, utilizando-se apenas o Português. Há tempos Renato Matusse defendeu algures a ideia de que devia-se dar aos jornalistas uma oportunidade para reflectirem sobre a riqueza das linguas nacionais nas escolas de jornalismo. Dizia ele que isso levaria aos jornalistas a aperceberem-se que para além de transmitirem emoções e messagens astéticas, também comunicam um corpus de conhecimento científico e realizações literárias dos moçambicanos. Não será esta uma boa altura de revisitarmos o seu pensamento?
Estou ciente das dificuldades da grafia das linguas locais, mas será esta uma desculpa para não se escrever nelas? Os economicistas poderão avançar argumentos sobre a viabilidade de tal projecto, mas poderemos alguma vez saber se não tentamos? Penso eu que educar exige muito mais de todos nós, e talvez seja altura de nos educarmos para melhor servir o país e ao povo, como dizia Samora Machel.
sexta-feira, 20 de Março de 2009
Agenda pe(n)sada
É uma agenda pe(n)sada, a nossa. O título não é meu. Era o nome de uma coluna que um familiar meu publicava todas as segundas no boletim electrónico, Mediafax. Era uma coluna muito analítica quanto informativa. Devido à uma incumbência do Estado teve que deixar de escrever – agora, com certeza os seus escritos giram em circuitos restritos. É uma pena o facto de os nossos intelectuais terem que deixar de publicar as suas ideias sobre o país logo que são nomeados para uma função do Estado.
Não sei se por ordens superiores ou por auto-censura. Mas como conheço um vice-ministro que revela as suas ideias na sua coluna dominical, posso supor que seja por iniciativa própria que deixam de escrever. Enfim, escusado será dizer que perdemos muito do seu convívio intelectual.
Bem, hoje pretendo recuperar o nome da tal coluna para descrever o que penso ser a agenda da bloguesfera, que ainda não sei se é uma agenda pesada para ser pensada ou pensada por ser pesada ou porque pesada – cada um pode tirar as suas conclusões.
A bloguesfera moçambicana cresce a olhos vivos. Nos nossos dias ter um blogue significa fazer parte de uma comunidade seleccionada, cujos membros possuem algum “nível de capital cultural e económico” nos termos de Pierre Bourdieu – é preciso recordarmo-nos que os blogues não podem viver para além do computador.
Há blogues para todos os gostos: blogues que se dedicam a contar sobre as festas e ramboias do fim-de-semana; blogues literários; blogues eróticos; blogues culturais, blogues académicos, blogues políticos, blogues femininos, entre outros. Por alguma razão, talvez devido à seriedade com que escalpelizam o país, alguns blogues são etiquetados de blogues “pensantes” ou “sérios”.
Aliás, os chamados blogues “sérios” ou “pensantes” de alguma forma aglutinam gente que na medida do possível tenta apresentar uma outra visão crítica do país – os autores desses blogues são pessoas especialistas em diversos ramos de saber. Esses últimos é que são o objecto desta postagem.
Mas antes é mister referir que o grande argumento a favor dos blogues é de que concorrem para o alargamento da esfera pública. Esfera pública definida inicialmente por Jürgen Habermas como um espaço político específico distinto do Estado e economia, uma arena discursiva que é palco de debate, deliberação, acordo e acção dos cidadãos. Por outras palavras, é um local onde cada indivíduo pode expressar os seus interesses e opiniões, gerar discursos e potencialmente levar a que se desenvolva uma acção colectiva que acrescente valor a esses interesses.
Quando Habermas avançou o seu modelo de esfera pública, fê-lo no contexto da centralidade de uma imprensa livre para a democracia, sendo que os meios de comunicação das massas funcionam como um mecanismo que informa e enforma a visão dos cidadãos transformando-se num campo para um debate de ideias sustentado, deliberações e crítica, onde os cidadãos podem expressar os seus interesses junto dos seus líderes. Portanto, o modelo concebido por Habermas centra-se no potencial democrático/revolucionário da diversidade de vozes articulando os seus interesses na esfera pública.
Decorre do disposto acima que qualquer meio de comunicação que possivelmente aumenta o acesso para mais público dispõe de um potencial democrático. Esta é a questão levantada com relação aos blogues, se de facto ajudam a alargar ou não a esfera pública.
Um outro argumento relacionado aos blogues é de que em alguma medida têm o potencial de revolucionar o jornalismo, torná-lo mais democrático – o pressuposto é de que os média ou são ou não democráticos, ou não o são suficientemente, tanto em países onde há controle ou supressão dos média como em nações onde existe uma comunicação social “independente”. Não se pode negar que a importância dos blogues em democratizar o jornalismo reside no seu potencial e não tanto em resultados actuais.
Portanto, os blogues têm o potencial de acrescentar valor às tradicionais práticas jornalísticas, oferecendo possibilidades para mudanças incrementais na forma como os média reportam e disseminam as notícias. Aliás, não é por acaso que o bloguismo é descrito como o jornalismo informal, onde temos amadores com algum conhecimento sobre como utilizar as tecnologias de informação.
Em Moçambique não existem blogues cuja vocação é disseminar notícias no sentido estrito do termo, isto é, não há blogues que cobrem eventos para noticiá-los, sendo que há poucas probabilidades de se distorcer a temporalidade do tradicional ciclo de notícias.
Também não existe o que em outros pontos se tem como “citizen journalist (jornalista cidadão)”, cuja tarefa é responder às notícias e opiniões em tempo real, servindo assim de monitores dos média. O que existe são blogues “pensantes” (este termo de novo) cuja característica é analisar o discurso que pulula na esfera pública, seja ele difundido através dos meios de comunicação social ou por outros métodos.
Como disse acima, os autores dos blogues “pensantes” são invariavelmente especialistas e com conhecimento profundo das suas áreas de interesse. Como não competem com os meios de comunicação social, mormente na produção de notícias, acabam socorrendo-se da sua especialidade para cavar mais fundo e com mais detalhe sobre as questões em debate. Contrariamente aos média tradicionais, nem precisam preocupar-se de espaço: isso é o que abunda mais no cíber-espaço. Ademais, através dos elos relevantes que abrem, permitem ao leitor consumir informação de variadas fontes.
Mas o que vejo ser um papel fundamental dos nossos blogues é a plataforma de debate que criam. Há uma certa reflexidade caracterizada por um ciclo despoletado por um texto, seguido de respostas e crítica, permitindo que todas as afirmações sejam sujeitas a um exame, o que leva a uma maior abertura e transparência, para além de que o tal texto é também exposto à uma gama de conhecimento e opiniões públicas que lhe dão um novo significado através da inter-textualidade do discurso - sendo a bloguesfera um mundo vasto, um único texto pode ser acedido por um público indeterminado.
No caso particular de Moçambique, se anteriormente eram os mesmos analistas que preenhiam as páginas dos jornais, compunham os painéis radiofónicos e televisivos, a bloguesfera veio, de alguma forma, mostrar que existe um mar onde se pode ir buscar outras vozes; com outros tipos de abordagens; com outro sentido de dever, acabando assim refrescando a própria esfera pública.
É que na maioria dos casos os autores dos blogues “pensantes” pretendem ser independentes de qualquer tipo de pressão económica, política e social. Porque se crê que um blogue representa o intento do seu autor, ele (blogue) acaba empoderando-o, concedendo-o mais liberdade ainda para fornecer mais cor, subjectividade (de modo algum se quer dizer que não haja objectividade) e comentário político de tal sorte que não seria possível dentro de um quadro de um meio de comunicação social tradicional. Porque o autor tem maior autonomia para publicar (“postar” em nossa linguaguem da bloguesfera), não corre os riscos de o seu artigo ser censurado – a censura, se é que é censura, acontece por via dos comentários críticos ao seu texto.
Numa altura em que se fala da erosão da liberdade de expressão em Moçambique, os blogues são talvez um dos únicos espaços onde a acção da censura oficiosa não se tem feito sentir, embora de quando em vez alguns bloguistas tenham recebido “recadinhos” dos seus superiores hierárquicos.
Chegados aqui, a questão que se pode colocar é se os blogues são influenciados pelos meios de comunicação social tradicionais, ou se os meios de comunicação de massa tradicionais são influenciados pelos blogues. O tráfico parece ser mais no sentido meios de comunicação social tradicional em direcção aos blogues. Uma leitura atenta dos blogues “pensantes” mostra que pelo menos por dia um ou dois dedicar-se-ão a comentar a fundo esta e aquela notícia em função da especialidade do seu autor.
Mas tem havido momentos em que a bloguesfera alimenta os média convencionais. Não vou aqui dar exemplos visto que, acho eu, os que por cá passam, e se estão em Moçambique, já viram textos retirados dos blogues que acabam nas páginas dos jornais.
Nesses casos notou-se que começa a enraizar-se a percepção de que os blogues também desempenham um papel muito importante no debate e mercado de ideias no país. E esse papel torna-se mais relevante ainda porque os debates na bloguesfera não conhecem os mesmos níveis de censura que nos órgãos de comunicação social tradicionais, sendo que há um caudal significativo de ideias, tanto a favor como contra. Talvez a grande atracção da bloguesfera é que não se coíbem de discutir questões que normalmente não encontram eco nos média tradicionais, por serem considerados controversos, e porque raramente as “postagens” e os comentários não são apagados ou censurados apenas porque este e aquele autor não gostou de um determinado ponto do vista.
Esta “travessia no deserto” da bloguesfera com relação aos órgãos de comunicação públicos carece de uma profunda análise que não cabe neste artigo. Mas para já se pode oferecer duas hipóteses: ou ignora-se a bloguesfera por, na maioria parte, esta veicular ideias bastantes críticas (ou desabafos) ao estabelecimento, ou porque esses órgãos de comunicação ainda não se aperceberam da dimensão dos blogues , e por tabela da Internet, na difusão de ideias.
A última hipótese até ganha mais sentido quando uma análise da qualidade do uso das tecnologias de informação mais modernas por parte dos órgãos públicos mostra que é baixa. Por exemplo, o Domingo não tem sequer uma página na Internet; a Televisão de Moçambique e o Notícias não actualizam as suas páginas em tempo real, ou seja, as notícias apenas são actualizadas no dia seguinte. A Rádio Moçambique não foge muito a regra embora propicie a qualquer um que tenha acesso à Internet a possibilidade de escutar as suas emissões. Mas é preciso referenciar que a não maximização das oportunidades oferecidas pela Internet também se estende para os média independentes.
Enquanto noutros países há uma convergência entre os média convencionais e a bloguesfera, onde os órgãos de comunicação social abrem espaço para blogues dentro das suas páginas assim permitindo uma maior interacção com o público, em Moçambique tal ainda não acontece.
Posto isto, não há dúvidas que a bloguesfera “pensante” moçambicana ainda está às milhas de chegar à esfera pública da acepção habermaniana, isto é, um maior acesso; a questão de consenso crítico-racional; e a ideologia e grupos especiais de interesse. Mas o mais importante a reter é que as análises na bloguesfera aumentaram de nível, o que augura bem para o nível de debate no nosso país.
Chegados aqui, tenho a dizer que não sei se o Nullius in Verba pode ser considerado um blogue “pensante” ou “sério” e que contribui para o alargamento da esfera pública da acepção habermaniana. O que sei dizer é que na medida do possível dou o meu melhor mas a minha ambição é fazer parte do clube dos “pensantes”.
Agora regresso ao título desta postagem para questionar o que fazer para que mais blogues contribuam para alargar cada vez mais a esfera pública de debate, aumentando o seu nível? Será que terão (os blogues) de traçarem uma agenda mais pensada ou pesada, ou as duas opções?


